segunda-feira, 11 de julho de 2011

Capítulo 22 - Malufinha

-Você queria... o quê?

-Ah! Pai, eu...

-Fala menina – exaltando a voz com firmeza – o que foi?

-É que hoje... hoje tem uma festinha...sabe...

-Festinha? Sei...

-É, uma festinha...

-Aonde?

-Na casa da Mariana.

-Qual Mariana?

-Boldjer!

-Quem?

-Ela é lá da escola! - eu precisava apelar- Vai pai, por favor!

-Ana! Que horas vai terminar essa festa?

-Ah! Cedinho cedinho!

-“Cedinho”! – odeio quando ele imita a minha voz – Você acha que eu sou bobo! Eu sei que quando a festa acabar você vai me ligar “ô pai, vem me buscar?”. Eu não caio mais nessa!

-Não paizinho. Eu vou dormir na casa da Fabi.

-Da Fabi?

-É! Você sabe que ela é responsável – que mentira... - , vai pai! Eu não tirei nenhuma nota baixa esse bimestre! Vai, por favor?

-Tá bom.

-Obrigada pai!!!

-Você vai ligar quando a festa acabar! E quero o telefone da casa dela e do celular dela, tá! E você vai ligar quando chegar na casa dela, e quando estiver voltando pra casa também! Ok?

-Claro pai! Eu ligo, eu ligo!

-A gente se fala em casa, tá anjinho!

-Tá pai! Tchau e Bjus papi!!!

-Bjus bebê!







sábado, 9 de julho de 2011

Capítulo 21 - Naftalizando

Susan era a “vovó italiana” mais fofa que eu conhecia.

- Claro Ana! - limpando as mãos no avental – Como vai sua mãe? Seu pai? Seu irmão?

- Ah! Eles estão bem. Mamãe esta de férias do Hospital. O papai foi trabalhar. E Matheus saiu com os amigos.

- Nossa! E você? Não foi pra escola hoje?

- Não. Tropecei na rua e voltei pra casa.

- Credo! Se eu caísse não conseguiria mais levantar! Minha coluna anda mal, tenho dores quando levanto de manhã. - ela só falava de doença, morte e falecimento- Minha unha do pé está encravada, estou com seborreia, artrite, artrose, bico de papagaio...

Essa conversa estava me deixando cansada, ouvir só tristeza deixa qualquer um deprimido.

- … Mas eu sou velha e cansada, já estou no fique da vida mesmo - credo! - . E você, como anda?

- Eu? Tenho algumas provas na semana. E vou numa festa hoje!

- É? Uhmmm...

- O que foi?

- Vai ver os garotinhos não é?

- Hahahaha não não!

- Uhmm, sei! Tenho um espartilho lindo lá em cima, se você quiser?

- Não não, obrigada! - Susan era uma ótima pessoa, mas um pouco viajada - .

Esse diálogo decorreu-se do jardim de trás até a porta da frente. Ela esqueceu a chave da porta dos fundos então tivemos que entrar pela frente.

Estava com o molho de chaves na mão tentando achar a chave certa.Não parava de falar sobre suas doenças passadas e as que um dia poderia ser.

Ela abriu a porta e o cheiro de naftalina invadiu-me, deixando-me nauseada e tonta. Até soltei um “- Nossa!”.

A sala de Su tinha aparência de uma selva. Haviam várias variedades de flores e plantas. Me senti no filme do Predador 1. Su me guiou até o telefone e pôs-se a disposição de qualquer serviço culinário “-Você quer um biscoito? Chá? Chocolate? Bolachas? Bolo? Torta? Sanduíche? Suco? Gelatina? Pão?...

- Não Susan, obrigada!

- Se você quiser alguma coisa é só me pedir!

- Claro claro!

Agora eu finalmente conseguiria com meu pai. Su saiu da sala indo em direção da cozinha, para cozinhar algo pra mim na certa.

Disquei o número no teclado. E depois de 4 toques meu pai atendeu.

- Alô?

- Oi, quem fala?

- Sou eu pai! Ana!

- Oi filha! O que foi?

- Ah pai, eu queria...




sexta-feira, 8 de julho de 2011

Capítulo 20 - Cristas

Minha respiração ficou acelerada. Só após fechar a porta senti que meu coração parava de palpitar com força. Minha mãe usando antidepressivos, isso não fazia sentido! Eram 14:15. Sem telefone e sem crédito no celular, como eu poderia ligar pro meu pai? Só me restava ir na Sra. Murage, a vizinha da casa de cima.

Peguei o casaco que estava debaixo da pilha de roupas. Puxei com força e acabei tropeçando num sapato. O que aconteceu? Caí com os quartos no chão. Levantei com toda a elegância de um bode manco. Arrumei o cabelo prendendo-o com um amarrador. Andei pelo corredor observando se minha mãe presidia em seu quarto, mas ele estava vazio. Desci as escadas e notei uma sombra na sala. Era ela.

- MÃE?

- Oi flor, o que foi?

- Vou na Su telefonar.

- O que aconteceu com o nosso telefone?

- Não sei. Procurei na sala e no meu quarto, mas não achei nada. Deve estar no seu quarto.

- Acho que sim, vou procurar mais tarde. Volte logo, você precisa se arrumar ainda.

- Já volto! Bjus

- Bjus, até mais tarde.

Sai e tranquei a porta. O dia estava ainda meio nublado. Dei os primeiro passos mundo afora.

Passei pelo jardim e cheguei na rua. Comecei a subir a rua em direção a próxima casa. A Sra. Murage ou Susan Murage era uma velhinha muito simpática. Eu almoçava uma vez por mês lá. Em sua juventude foi enfermeira, participou até da Segunda Guerra Mundial. Sua idade? Eu parei de tentar contar...

Andei uns 40 metros até parar na frente de um jardim cheio de margaridas vistosas. Apressei-me até sua porta. TOC TOC

Ninguém respondeu.

TOC TOC TOC

Percebi que era inútil bater naquela porta. Decide dar a volta na casa. Virando notei uma melodia suave, que pairava no ar. Andei pela lateral da casa até chegar nos jardins do fundo. Lá estava, Su ajoelhada plantado cristas de galo.

- Su?

- Oi Aninha! Tudo bem?

- Tudo ótimo! Você me empresta o seu telefone por favor?



segunda-feira, 4 de julho de 2011

Capítulo 19 – Um caso depressivo

O caso do telefone me deixou intrigada, o quê aconteceu com ele?

Agora eu estava num impasse. Meu celular só tinha bônus para a mesma operadora, e a do meu pai não era a mesma da minha. O que eu podia fazer:


1° - Pedir o celular da minha mãe;

2° - Ir na vizinha da casa de cima, a Sra. Murage;

3° - Ligar a cobrar (que vergonha);

4° - Procurar um cartão telefônico;


Isso! Eu tinha comprado um cartão telefônico, mas fazia um tempo, acho que estava no armário da sala. Já era 14:00 horas, e eu tinha um tempo até resolver essa questão. Parei de revirar o meu armário. Desci as escadas para a sala.

A sala ainda estava deserta. O armário da sala estava fechado e os vidros transpareciam os objetos em seu interior. Havia chaves, correspondências, papéis avulsos, esculturas de vidro e porcelanas.

Fui diretamente ao seu encontro. O fino pó deixava áspera a fechadura.

Abri. Fiquei perdida em meio ao caos, tudo estava bagunçado e desorganizado. Comecei a puxar os papéis para fora do armário, eram receitas médicas, pedidos de pizza, recibos, cartas da minha avó, contas, notas e … e … o quê? O QUÊ ERA AQUILO? Fiquei pasma. Puxando papéis diversos e apenas passado o olho, vi. Vi o que me deixou pálida. Era um receita de remédio. Nada de mais. Mas o seu conteúdo meu deixou triste. Realmente triste. Era um remédio contra depressão. E receitado para: Lola G. Phillip. Quem? MINHA MÃE. É, minha mãe chama-se Lola. Nossa, ela estava usando antidepressivos, mas qual a razão? Ela estava bem com meu pai, bem, era isso que eu achava. Era eu? Provavelmente não. Só podia ser Matheus. Ele estava dando trabalho à ela. Tirava-lhe o sono, a paciência e a tranquilidade.


Peguei o papel com medo. Tanto medo que não percebi que minha mãe estava atrás de mim.

      - Ai!

      - O que foi?

      - Nada nada.

      - O que você estava fazendo no armário?

      - Eu eu … eu estava procurando o telefone do disk pizza.

      - Achou?

      - Não não. Eu vou indo. Vô pro quarto. (risinhos)


Saí correndo como o vento. Subindo e saindo da visão dela. Foi por pouco.





quinta-feira, 30 de junho de 2011

Capítulo 18 - Antes de tudo, o mais importante

Agora eu só tinha que esperar a Fabi chegar, a gente se arrumaria e pronto. Tudo resolvido.

Tudo? Mais ou menos...

Minha mãe já sabia dessa festa, mas meu pai não. E era ele que dava a palavra final. E agora?
Será que um bilhetinho resolveria?
Um recado na secretária eletrônica?
Uma mensagem?
Um e-mail?
Sei lá... o quê? Não eu precisava encontrar uma saída, uma resposta.

Com o celular em minhas mãos e cabeça no travesseiro, fiquei queimando neurônios.
Uma saída?
Uma tentativa?
Uma... uma... uma... ah!!!!!
Já sei!!!
Já que eu não tenho coragem de falar na frente dele e ainda de última hora, vou ligar pra ele. Pelo menos eu falaria e não escreveria ou digitaria.
Ok!

Levantei da cama e abri a porta do quarto. Segui pelo corredor até as escadas. Desci. Fui correndo até o telefone. E dei de cara com apenas o suporte nada do telefone. Ué? Onde ele estaria?
Tentei escutar com paciência, pra ver se minha mãe estaria no telefone. Mas nada. Decidi ir ao seu quarto. Cheguei no batente da porta, só ouvi a sua respiração. Calma e suave. Ela dormia como se o mundo tomasse um fôlego antes de uma grande maratona.

O quê aconteceu com o telefone?